| A parte
terapêutica do aconselhamento pastoral
O
que tem o aconselhamento pastoral que a psicoterapia não tem?
A resposta é a Koinonia; a comunhão entre os crentes, e
o Agapé; o amor divino. A psicoterapia oferece um tratamento “médico”,
o aconselhamento pastoral está ao serviço da cura divina,
cura no sentido total (holístico).
No que diz respeito à Koinonia, a igreja, como corpo de Cristo
é responsável por inspirar, treinar e acompanhar os colaboradores
pastorais, porque o dom pastoral é dado à igreja. Com o
Agapé, o amor é o amor de Cristo, que se preocupa com o
próximo.
O aconselhamento pastoral é um ministério da igreja: é
aconselhamento na base da fé, cuja fonte é a palavra de
Deus por meio do Homem. Este ministério não é actividade
do homem mas de Deus por meio do homem. O alvo é a mudança
e renovação (Ef. 4). Nem todos têm o dom (I Cor 12
/ Ef. 4:11). A ênfase está no amor de Cristo, e não
no dom! Assim, o relacionamento pastoral tem um efeito positivo e curativo:
é um relacionamento para providenciar espaço para crescimento
(discipulado/renovação) e um relacionamento de confiança
para abrir o coração (restauração).
O relacionamento pessoal e pastoral é a essência da fé
cristã: relacionamento entre Deus e o Homem e de igual modo entre
o homem e homem.
A Igreja primitiva é caracterizada pelo seu treinamento e cuidado
pastoral. Quando a igreja deixou de ser um corpo vivo e se tornou numa
instituição, ela perdeu os dons específicos. Claro
que há muito mais a dizer sobre esse assunto, mas dentro do nosso
contexto o que conta é que no decorrer do tempo o relacionamento
pastoral perdeu o seu significado dentro da Igreja. Sempre houve necessidade
de aconselhamento cristão, mas nunca tanto como nas últimas
décadas devido a mudanças profundas no campo social e moral.
As ciências humanas aumentaram em número e profissionalizaram-se;
psiquiatras, psicólogos e conselheiros cristãos também
disponibilizaram os seus serviços especializados e pagos para ir
ao encontro destas necessidades.
O facto de o ministério do aconselhamento pastoral já não
funcionar dentro do seu contexto (igreja) mas fora, tem causado muitas
polémicas até hoje.
Houve várias tentativas de integrar posições cristãs
nos modelos da psicoterapia q ue não nos são possíveis
abordar neste espaço, mas nenhuma destas transplantações,
misturas ou molhos cristãos conseguiram evitar a influência
das premissas (pressupostos) antropocêntricos da psicoterapia.
Isto levanta outra questão; a Bíblia e a psicoterapia são
aliadas ou inimigas?
Os autores Jef de Vriese e Walter Barret, no seu livro “Aconselhamento
Pastoral”, estabeleceram 4 princípios:
1. A auto-suficiência da Bíblia; a Bíblia contém
todos os princípios necessários para a elaboração
de um modelo de aconselhamento pastoral.
2. Todos os modelos que não são teocêntricos são,
do ponto de vista bíblico, incorrectos (Rom. 14:23/ I Cor 10:31)
e não dão resultados que sejam válidos para Deus
(Rom. 7:5). Isto quer dizer que o aconselhamento secular não contribui
para a concretização do plano de Deus para este mundo, uma
vez que não tem em conta as pressuposições Divinas,
nem os seus fundamentos.
3. Apenas técnicas que estimulam factores curativos bíblicos
(teocêntricos) podem ser usados ou desenvolvidos no aconselhamento
pastoral. Esta afirmação diz respeito à integração
de técnicas psicoterapêuticas num modelo de aconselhamento
pastoral. As pressuposições e a representação
do Homem por detrás de um modelo de aconselhamento influenciam
a orientação (antropocêntrica ou teocêntrica)
das técnicas terapêuticas. As técnicas psicoterapêuticas
que estimulam factores curativos antropocêntricos são insuficientes,
errados e inapropriados para a prática do aconselhamento pastoral.
Este princípio não quer dizer que o conselheiro pastoral
deve ignorar a psicoterapia nem considera-la inútil. O aconselhamento
pastoral pode fazer uso da pesquisa secular. Por exemplo; o esquema de
factores curativos abre perspectivas para a descoberta dos equivalentes
bíblicos e ensina os cristãos algo sobre o próprio
modelo de organizar e esquematizar estes factores para desenvolver um
modelo credível e suficiente, baseado na Bíblia. Se fizer
uso de pesquisas seculares, não pode sem mais nem menos assimilar
técnicas seculares, mas deve partir de uma perspectiva bíblica
para reflectir nelas e adaptá-las, para adquirirem outro conteúdo.
O modelo cristão não está portanto em oposição
nem em sujeição, nem em ruptura, nem em integração
com a psicoterapia, mas antes reflecte e avalia os seus modelos à
luz da Bíblia de uma forma activa.
4. As perspectivas da psicoterapia podem ser úteis para o conselheiro
cristão, no entanto, não é fundamental.
Façamos a distinção entre “o quê”,
e “como”.
ü “o quê” – é realmente importante
num processo de aconselhamento. O conselheiro pastoral encontra informação
suficiente na Bíblia. A psicoterapia não tem nada a acrescentar
a isso. Ela pode, no máximo ajudar a descobrir factores sobre os
quais a Bíblia já fala (II Tim. 3:16,17 / II Pedro 1:3,4)
ü “como” – além da sua função
de “eye-opener” (abrir os olhos) o conselheiro pastoral pode
fazer uso de conclusões práticas da psicologia clínica,
mas só quando estas conclusões estão desligadas do
seu fundamento; a representação ou o conceito do Homem que
está na base deste modelo.
O modelo
cristão que os autores deste livro oferecem não é
só interessante mas também muito prático (o referido
livro já está traduzido por um ex-aluno do Instituto Bíblico
Português e o manual de trabalho para acompanhar o curso de introdução
para o aconselhamento pastoral será o próximo).
Hoje em dia há felizmente muitas obras profundas sobre este ministério
de aconselhamento pastoral da igreja e também há cursos
especializados e elaborados nesta área, tanto nos Estados Unidos
como na Europa. Àquilo que eu chamo à atenção
é que os autores e pastores não tiveram receio de reconhecer
erros do passado, que realmente é uma atitude humilde e transparente
(o que é característico da fé cristã).
O processo para que o ministério pastoral volte a fazer parte da
igreja com a sua ênfase terapêutica não vai ser fácil
por várias razões: a institucionalização da
igreja e expectativa que o pastor (pago) tenha todos os dons, e também
a falta de visão de desenvolver modelos cristãos (com as
suas ferramentas) com qualidade.
Factores positivos são:
1. Estão a formar-se grupos (ou células) dentro das igrejas
com a visão bíblica do cuidado mútuo.
2. Estão a multiplicar-se cursos para formar equipas pastorais
dentro das igrejas para acompanhar pessoas com problemas dentro e fora
da igreja, que também tem conhecimento suficiente (nas áreas
da saúde) para encaminhar as pessoas para outras especializações,
centros, etc.
Existe uma associação de aconselhamento pastoral cristã
internacional na Europa; a ACC – Europe. Na última conferencia
desta associação um dos oradores disse: “ os países
onde o aconselhamento pastoral quase não existe têm uma vantagem;
podem desenvolver o ministério sem o peso dos erros do passado
e pelo menos usufruir dos últimos desenvolvimentos nos outros países
– um desafio para Portugal? Ou para nós?
Elisabeth
Anema – Langerhorst
Assistente Social com Pós-Graduação
em Aconselhamento Pastoral
Uma
Igreja Diligente
A
necessidade ao nosso redor é assustadora. um em cada três
casamentos acaba em divórcio. 15% da população sofre
de depressão e quase 20% tem medos ou angústias. Quantas
pessoas não têm dificuldades em conversar com os filhos sobre
a Internet, vícios ou sexualidade? Uma em cada sete raparigas é
abusada e nos rapazes é um em cada dez. E, infelizmente nas igrejas
este número não é inferior.
Imagine
que amanhã começaria um grande avivamento e no próximo
domingo haveriam mais 25 pessoas na igreja, e no domingo seguinte mais
100. Essas pessoas sentiram a necessidade de vir á nossa igreja.
Estaríamos preparados para lhes ajudar? Quais seriam as suas expectativas?
Eles estariam à espera de uma resposta bíblica e apoio concreto.
Temos capacidade para dar este acompanhamento, ou vemo-nos forçados
a encaminhar estas pessoas para serviços profissionais que tem
grandes listas de espera e são muito caros?
No
passado ouviu-se muito; “Jesus é a resposta!”, mas
sabemos realmente qual é a pergunta da sociedade actual? Está
na altura de as igrejas entenderem a sua responsabilidade e vocação
nesta área.
A
associação “O Servo” quer servir as igrejas
em Portugal com esta missão através de acções
de formação e cursos especializados.
No
capítulo 61 de Isaías podemos ler como o espírito
de Deus foi enviado para restaurar e curar o Homem ferido. No versículo
4 é descrito que essas pessoas feridas e presas se tornam árvores
de justiça debaixo das quais as ovelhas se ajuntam para descansar
e proteger-se do sol. Neste versículo é transmitido um importante
princípio: Deus quer restaurar os quebrantados de coração
para serem capazes de atingir outras pessoas através do seu testemunho
e cuidado.
A
igreja deve ser como uma oficina divina onde Ele pode restaurar. Muitos
ficam desgastados e muitos tem que desistir por causa das feridas da solidão,
das consequências das suas prioridades erradas e das exigências
da sociedade actual onde as pessoas são avaliadas por aquilo que
eles têm (física e mentalmente) ou fazem.
E é na igreja que as pessoas podem aprender a viver e onde podem
experimentar o Seu amor incondicional e encontrar a sua verdadeira identidade
e um alvo na vida; aqui são avaliadas por aquilo que elas são.
A sociedade precisa destas igrejas capazes de acolher pessoas e acompanhá-las;
que dão respostas às muitas perguntas e dúvidas.
Que bom seria se uma igreja local colocasse anúncios nos jornais
onde ofereçesse apoio gratuito em casos de problemas relacionais
ou de educação, etc.: como um gabinete de atendimento ou
linha telefónica de apoio. Não foi a igreja chamada para
acolher as ovelhas sem pastor?
T.
Vegt
Extraído da revista trimestral do Centro
de Aconselhamento Pastoral CPC, Dordrecht, Holanda
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